9 de novembro de 2014

Na contramão das mortes por aborto, vidas são salvas



Coração aos pulos, toco o interfone. Anuncio meu nome e o horário agendado. Não deixam minha amiga entrar. Por quê? Medo. Subo as escadas esperando pelo desconhecido. A gravidez recém-descoberta era meu motivo, e a iminência de interrompê-la, uma necessidade. Na pequena sala da casa de uma rua movimentada em Belo Horizonte, quadros de mulheres alegres e suas barrigas anunciam uma espera feliz. Não é o meu caso. Estou aqui para abortar.

Maria* me recebe sorridente. Eu, mãos suando, a cumprimento e sou levada a uma segunda sala. Quando ficamos sozinhas, ela conhece a minha história: após sete meses de relacionamento com meu patrão, um homem casado e que já tem filhos, a gravidez me pegou de surpresa. Com medo de ser julgada e com a voz embargada, peço ajuda. Sem críticas, ela me acolhe e tenta, carinhosa e firme, durante mais de uma hora, fazer com que eu desista de interromper uma vida. “Na verdade, isso aqui não é uma clínica de aborto”, garante.

Reafirmo que não quero a criança. Percebendo meu nervosismo, Maria vai além. Mostra um vídeo de como a maioria dos abortos é feita. As imagens chocantes mostram bebês sendo mutilados, sugados, assassinados. Horrorizada, recebo explicações sobre as consequências, e a certeza de abortar começa a se esvair. Fico mais calma e aceito o cuidado e a preocupação daquela mulher que nunca tinha me visto, mas já me tratava como filha. Saio de lá com o convite para encontros semanais, uma dúvida angustiante e a gratidão por não estar mais sozinha.

A visita ao local e o que senti naquele dia de outubro são reais, mas não a história que contei. Construí um personagem para apurar a suspeita de que uma clínica clandestina atuaria na capital, com direito a cartazes de propaganda espalhados em comércios e na internet.

Uma semana antes de encontrar Maria, um desses anúncios me chamou a atenção entre guloseimas em uma padaria de Contagem, na região metropolitana. “Engravidei. E agora?”, problematiza a primeira frase, seguida da foto de uma jovem cabisbaixa. E, em seguida, o conforto: “Se você está numa gravidez indesejada, procure-nos! Nós podemos te ajudar”. É uma clínica de aborto, tive certeza. Mas isso é crime!

Entrei em contato com o local por telefone me passando por grávida. “Sobre isso, não posso falar por telefone”, foi a resposta que ouvi ao tocar na palavra ‘aborto’. “Vem aqui conversar com a gente, podemos te ajudar”, insistia.
No espaço por trás do portão verde e do muro alto do número 62 da rua Joazeiro, funciona a Apoio a Mulheres numa Gravidez Indesejada (Amgi), uma organização ligada à Igreja Batista da Lagoinha. De acordo com a responsável pelo trabalho, Katilene Silva, cerca de 20% das mulheres que procuram a ONG o fazem com o intuito de abortar. Dessas, um terço muda de ideia. “A maioria dos casos que recebemos é de rejeição à gravidez, devido a um momento difícil ou porque não foi planejada”, destaca. “Quando as pessoas ligam, a gente sempre marca um encontro. Nunca dispensamos por telefone”.
Em atuação desde 2008, a Amgi acompanhou cerca de 600 mulheres, entre 15 e 45 anos, a maioria em situação de vulnerabilidade social, como usuárias de drogas e moradoras de rua. O apoio gratuito continua até depois do nascimento do bebê.


Susto e negação. Grávida de nove meses, a estudante Ana Luiza Lopes, 26, contou com o apoio da entidade para aceitar a chegada da filha. Mesmo casada, ela se considerava despreparada para ter um filho, já que começaria em um novo emprego.
“Pesquisei na internet sobre dificuldades na gestação e gravidez indesejada, para ver depoimentos e saber como outras mulheres estavam lidando com isso, porque eu estava me sentindo sozinha”. Na busca, ela descobriu o trabalho da Amgi e foi acolhida. Ana Luiza passou por atendimento psicológico e emocional e agora aguarda ansiosa por sua Maria Eduarda.
* Nome fictício

Amgi
Contato. Interessados em ajudar a ONG como voluntário, palestrante, mantenedor, intercessor ou doador podem ligar para (31) 2551-8525 ou acessar www.amgi.org.br. A Amgi fica na rua Joazeiro, 62, no bairro São Cristóvão, na capital.

Saiba mais
Referência. A Amgi segue os parâmetros da organização Brasil4Life, dos Estados Unidos.
Equipe. Atendem no local uma assistente social, duas psicólogas, duas enfermeiras, sete conselheiras e quatro palestrantes.
  


Por Fernanda Viegas 


**Essa reportagem foi publicada originalmente no jornal O Tempo
Para ler a matéria clique aqui.