19 de julho de 2012

Entrevista: Debora Kornfill

Deus sempre conduz tudo...

Nesta semana, vamos ter uma novidade no blog: faremos uma enquete com o tema abuso sexual.

Há um tempo, a coluna Li, indico sugeriu o livro Vítima, Sobrevivente, Vencedor: perspectivas sobre abuso sexual e, hoje, vamos publicar uma entrevista da autora.

Tudo tem um objetivo, pode ser seu momento de libertação e cura.

"Tudo é que negado não pode ser curado!"

Nessa entrevista que concedeu ao Lagoinha.com, Débora fala das razões de um abuso acontecer em uma igreja, como agir nesses casos e como não só as vítimas, mas os agressores, podem obter a cura.

Deus te abençoe!



Lagoinha.com: Você deixa claro em seu livro que muitos que são vítimas do abuso sexual são convertidos ou de família evangélica. Como explica isso e porque isso acontece ou tem acontecido com freqüência? 

Débora: A igreja evangélica muitas vezes tem crido e pregado que na hora da conversão, tudo se transforma na vida do novo crente. Com isso, a pessoa sente vergonha de seus problemas não resolvidos, e muitas vezes começa a usar uma "máscara" na igreja, dando a impressão de uma vida "vitoriosa", enquanto que a realidade é bem diferente. Padrões familiares, tanto os bons como os disfuncionais, são passados de uma geração para a próxima, a não ser que haja intervenção. A maioria dos abusos acontece em lares assim, onde um (ou mais) vício(s) é um fator atual, ou onde os padrões típicos dessa dependência são reproduzidos mesmo na ausência de álcool ou drogas ou outro tipo de vício. Precisamos, nas igrejas evangélicas, entender essa dinâmica e ensinar as famílias a se amarem e se relacionarem de formas sadia, pois a maioria das pessoas não têm modelos disso. No caso específico de abuso sexual, nossa sociedade em nada ajuda, pois deixa fácil acesso vários tipos de pornografia e de sensualidade desenfreada e distorcida. Um estudo feito com pessoas presas por infrações sexuais revelou que 100% estavam ativamente envolvidas com pornografia. Acho uma grande ironia: a Lei diz que abuso sexual é crime hediondo, mas pouco faz para conter a avalanche de pornografia que inunda nosso país, e que é um fator claro na prática de abuso sexual. E somos muito ingênuos se acharmos que isso se limita ao mundo fora da igreja. Muitas vezes tenho entrando em lares evangélicos onde a TV domina o ambiente, e onde crianças pequenas assistem regularmente todo tipo de programação pervertida. É quase impossível comprar um jornal sem se expor às revistas pornográficas, sem falar dos outdoors , da internet, etc., etc. A crença que praticar sexo desde uma idade muito nova, sem ou com casamento, é generalizada em nossa sociedade. A idéia é que, sentindo desejo, se procura satisfação, tudo bem. Infelizmente, as pesquisas mostram que práticas sexuais dentro das igrejas não são muito diferentes das de fora. Então, sendo ou não uma pessoa "crente", alguém que tem pouca auto-estima, mas que é bastante egocêntrica, que quer se mostrar dono de algo no seu mundo, facilmente tem acesso a idéias e impulsos que a levam a abusar de crianças ou adolescentes, que têm menos poder do que ela. Isso acontece, sim, com pessoas evangélicas, que nunca trataram seus próprios traumas de infância e que nunca aprenderam como deve funcionar um lar saudável. Eu gostaria de ver as igrejas assumirem com seriedade o seu papel de discipulado nas vidas de seus congregados, não somente em termos espirituais, mas em todos os aspectos de suas vidas como o emocional, o relacional, o familiar etc. Como diz Paulo aos tessalonicenses 5:23, “para que nossa alma, nosso corpo e nosso espírito sejam purificados para o dia de Jesus.”


Lagoinha.com: Por que acontece muitos abusos até mesmo em salas de aconselhamento na igreja e como lidar com a situação? 

Débora: Acho que precisamos alertar e educar as pessoas sobre o que é apropriado e o que não é, para que possam resistir, evitar situações complicadas e saber dizer "não". Sei que muitas vezes crianças não têm como escapar, mas outras vezes elas podem ser alertadas quanto ao que fazer se alguém tentar algo com elas, inclusive contar para um adulto confiável o que está acontecendo. Os agressores fazem todo tipo de ameaça para que a vítima não conta. Precisamos ensinar aos nossos filhos que não existe esse tipo de segredo, que se alguém exigir deles guardar um segredo, este é o exato momento em que tem que contar.


Lagoinha.com: Como orientação àqueles que foram abusados sexualmente, você diz que é útil escrever tudo num caderno, relatando sentimentos, emoções e reações. Em que medida isso é possível, já que a pessoa se encontra num trauma muito grande por ter sido abusada? 

Débora: Claro que isso não funciona para todos, pois nem todos conseguem se expressar de forma escrita. Mas, para quem consegue, é muito válido começar a se colocar "fora de si", isso é, de uma forma concreta, externalizada, o que aconteceu. Muitos sobreviventes se acham "loucos" pelos pensamentos e sentimentos que têm, e quando conseguem verbalizar isso, de forma escrita ou falada, estão tomando o primeiro passo em direção à cura. Enquanto a sua experiência é mantida como um segredo fechado dentro de si, a cura é impossível. Escrever num caderno pode dar para a pessoa perspectiva e confiança para se abrir com outra pessoa, começar a falar a verdade sobre sua vida.


Lagoinha.com: Por que muitas vítimas ou mesmo abusadores hesitam em procurar ajuda, especialmente da igreja? É porque se sentem intimidados, com medo, ou porque acreditam que a igreja nada poderá fazer?

Débora: Acho que a igreja, em muitos, casos não tem se mostrado muito aberta a lidar com os tipos de problemas que vítimas e/ou abusadores podem apresentar. Tenho observado nas igrejas três perspectivas diferentes: 1a.) o papel da igreja é apenas espiritual. Outros problemas, por exemplo, emocionais, devem ser tratados fora da igreja, como quando alguém procura um médico para tratar de um problema físico; 2a.) o papel da igreja é apenas espiritual, mas tudo na vida se encaixa nessa esfera: doença física é um problema espiritual, como também problemas emocionais, sociais, relacionais etc. A solução, então também é espiritual: mais leitura bíblica, mais oração, mais fé, confissão de pecados etc; 3a.) o papel da igreja é cuidar da pessoa na íntegra, incluindo apoio nas áreas físicas, emocionais etc. Mas quando se trata de áreas mais sérias como seqüelas de abuso, os pastores e líderes muitas vezes não sabem como ajudar, apesar de querer. Estou desejoso de que mais igrejas se conscientizem de poderem ser um fator muito importante (talvez o fator mais importante) na restauração de vítimas de abuso, e entenderem como podem ajudar. Com isso, acho que as atitudes das vítimas em relação a procurar ajuda mudará. Várias vítimas que têm conversado comigo contam de como foram magoados nas igrejas e por pastores que não lhes entenderam. Às vezes se sentiram criticadas e julgadas e até chegaram a ser expulsos das igrejas, ao invés de serem ajudados.


Lagoinha.com: Até que ponto a igreja se encontra preparada para lidar com o abuso sexual e como se preparar melhor?

Débora: Agora temos vários livros disponíveis, para que os pastores, líderes e leigos interessados no assunto possam se informar, e não só o meu livro, mas outros também que alistei na bibliografia.


Lagoinha.com: Num caso em que o abuso sexual acontece numa família evangélica, quem mais precisa de ajuda: a vítima ou o agressor? 

Débora: Em primeiro lugar, a vítima precisa de proteção, para que o abuso não continue. Uma avaliação cautelosa é necessária para entender como conseguir isso, pois muitas vezes o agressor tentará alguma forma de vingança por ter sido descoberto. É mais provável que a vítima aceite ajuda do que o agressor. Muitas vezes o agressor não admite que tem problema e não acha que precisa de nenhuma ajuda. Para o agressor que ainda é capaz de se arrepender, é importante ajudá-lo, junto com quaisquer medidas tomadas pelas autoridades judiciais. É importante fazer um boletim de ocorrência, e seguir a orientação dos profissionais na área. Normalmente, o agressor pode escolher entre prisão e tratamento. Se ele não cooperar com o tratamento indicado, então ele vai preso, pois abuso sexual é crime hediondo. A vítima, junto com a sua família, precisa de muito apoio da parte da igreja, junto com quaisquer cuidados psicológicos que sejam fornecidos. Para entender melhor toda essa dinâmica, recomendo leitura de meu livro, pois é um assunto complicado e cada caso precisa ser considerado pelos seus próprios méritos.


Lagoinha.com: Como vê a recente onda de casos e denúncias de abuso sexual e pedofilia e até que ponto é útil a imprensa divulgar o fato?

Débora: Por um lado, acho importante o público reconhecer que abuso sexual e pedofilia são problemas reais e sérios em nossa sociedade. Por outro lado, houve um pouco de sensacionalismo, que não chega de fato a ajudar as vítimas e as suas famílias.


Lagoinha.com: Qual o primeiro passo a ser dado por alguém que sofreu abuso: a denúncia ou a procura de ajuda? No caso de denúncia, qual o momento ideal par a fazê-lo e como deve ser feito? 

Débora: A denúncia é uma procura de ajuda. Os casos denunciados são avaliados por profissionais, para determinar o tipo de ajuda mais adequado para cada situação, incluindo aconselhamento profissional para toda a família. O momento ideal para fazê-lo é o quanto antes. Entendo que a família se preocupa muito com o escândalo e com todas as possíveis conseqüências para a família, mas os profissionais na área levam todos esses fatores em conta quando decidem o que deve ser feito. A família precisa valorizar a vítima a ponto de procurar proteção para ela. Abuso sexual, na maioria das vezes, é sintoma de um sistema familiar desequilibrado e disfuncional, que precisa de atenção e intervenção, pois todos estão sofrendo, e não só a(s) vítima(s) de abuso. A maneira mais fácil de registrar uma denúncia é pelo SOS Criança ou numa delegacia, onde a denúncia será encaminhada às autoridades indicadas.


Lagoinha.com: Que conselhos daria para aqueles que desejam ajudar as vítimas de abuso e não sabem como faze-lo? 

Débora: Ler os livros, conversar com outros que sabem mais, assistir palestras e congressos… Se quiserem, podem ligar para nós(11-5523-2544, ramal 142), para pedir informações.


Lagoinha.com: Que conselhos daria para as vítimas de abuso que estão desejosos de obter a cura e não sabem como agir? 

Débora: Os mesmos conselhos que sugeri anteriormente. Acho quase impossível alguém se curar sozinho, sem ajuda de outra pessoa. Para isso, terá de contar a sua história, o que não é fácil a primeira vez.


Lagoinha.com: Há uma grande preocupação por parte dos psicólogos e conselheiros cristãos em oferecer ajuda às vítimas de abuso sexual. E o que dizer daqueles que são os abusadores e que também procuram ajuda? Que conselhos dariam para eles? 

Débora: Procurar alguém em quem confiam, ligar para nós ou para outra entidade envolvida nessa área. Eles podem se auto-denunciarem, e com isso, obter ajuda profissional.


Lagoinha.com: Uma palavra pessoal sobre o assunto. Uma palavra pessoal sobre o assunto.

Débora: A boa notícia é que existe esperança genuína de cura, de mudança de vida, de um novo começo. A igreja brasileira está começando a acordar, e creio que o futuro será melhor do que o passado tem sido.



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